PostHeaderIcon A Arquitetura das Memórias


Em 2008 o mercado teve a oportunidade de conhecer Carol Bensimon. No mês de junho, chegava às livrarias Pó de Parede, seu livro de estréia, através do também estreante selo Não Editora. Exatamente 10 anos antes, outra porto-alegrense, Letícia Wierzchowski, estreava no mundo das letras. As duas escritoras representam épocas diferentes, com outras vivências e formas de enxergar e retratar o mundo que as cercam, mas trazem consigo uma característica em comum: são escritoras que possibilitaram ao cenário literário, cada uma em um período e de maneiras diferentes, um sopro de renovação, porém sem carregar isso como ideal.

podeparede

Pó de parede é um livro formado por três histórias curtas, independentes, mas com alguns elementos que as unem: os conflitos que cercam o período em que se deixa de ser adolescente e o início da vida adulta, e a memória construída nessa época. Com narrativas diretas e cortantes, Carol descreve um mundo que poderia ser de qualquer pessoa, marcado por uma estranha residência, e talvez isso possa despertar reações incômodas em alguns leitores. É a nostalgia que não se deseja, mas um tempo que sempre queremos de volta.

Por e-mail, Carol, que está na França cursando doutorado na área de literatura comparada, concedeu entrevista onde desenrola os fios que cercam o processo de produção dos seus escritos, opina sobre o mercado literário, entre outras coisas.

carolbensimon

Quando você percebeu que tinha habilidade com as palavras, e que poderia fazer disso uma carreira?

É difícil ser precisa nesse sentido, mas a certeza que eu tenho é que essas duas coisas aconteceram em momentos diferentes. Por muito tempo, o caminho mais seguro parecia ser o da publicidade ou do jornalismo (curso que cogitei antes de me decidir finalmente pela publicidade). Mas, com o tempo, o caminho que eu tinha escolhido ficou meio intolerável, e ser escritora de fim de semana já não era suficiente.

Nesse período, pode apontar alguma influência literária?

Começou na infância e pré-adolescência, com histórias policiais, depois passou por Caio Fernando Abreu, e chegou em Faulkner e Cortázar.

Outro produto cultural influenciou seu trabalho (ou ainda influencia)?

Sim. O cinema. Também a música. Ao ponto de pensar “esse capítulo tem que soar como essa música”, enfim, buscar pôr no texto a sensação que determinada música me causa. Costumo fazer isso com fotografias também.

Escritores de sua geração, muitas vezes, tem uma característica em comum: a internet. Seja em blogs ou listas de distribuição, a rede parece ter se tornado uma ferramenta. Você acredita que ela tenha relevância no processo de criação, ou funciona apenas como canal de divulgação?

Como canal de divulgação. Nesse sentido, acho que fui bastante beneficiada, pois sempre acabo tropeçando com um ou outro blog que cita algum trecho do Pó de Parede, ou que faz um tipo de resenha, enfim. É o livro circulando no boca-a-boca virtual.

Pela sua experiência, como você enxerga o mercado editorial? Mesmo com tantas e novas tecnologias, formas de se divulgar, ainda é difícil publicar um livro?

Publicar um livro, no sentido físico da coisa, é fácil, e relativamente barato. A dificuldade é aparecer, num país em que há tão poucos leitores, mas tanta gente querendo virar escritor.

No momento, você está realizando um doutorado em Paris. Como é a rotina em outro país, conciliando estudos, lazer e a criação de seu segundo romance, Sinuca embaixo d’água?

Como o doutorado está no início, ele ainda não me absorve tanto assim, ainda mais porque aqui na França não há aulas no doutorado. Então quer dizer que é uma atividade meio solitária, enfim, ler livros teóricos, procurar hipóteses, anotar algumas coisas. O que me ocupa mesmo é o romance, que estou meio ansiosa para ver pronto, mas que precisa de um tempo que, às vezes, a gente não controla.

Saiba mais sobre os blogs de Carol Bensimon:

http://www.insanus.org/carolbensimon/

No blog Kevin Arnold Para Dois (Kevin Arnold é nome do personagem principal da série Anos Incríveis), registra as impressões de Carol desde 2004. Assuntos diversos, como música, literatura, cinema e o cotidiano costuram-se com a sua narrativa característica.

http://www.clicrbs.com.br/paris75004

Morando em Paris desde o final de 2008 para um doutorado na área de literatura comparada, Carol encontrou nas ruas da cidade (e no seu próprio apartamento) material para um novo blog. Muito mais do que o diário de um viajante, Paris 75004 (referente ao descolado bairro de Marais), descreve as particularidades da cultura local, o cotidiano de um dos destinos mais procurados por turistas e coloca à prova mitos envolvendo o povo parisiense, o que responde por alguns do melhores momentos.

http://www.carolbensimon.com/sinuca

Apesar de “desativado”, o blog de Sinuca embaixo d’água, o qual faz parte do endereço www.carolbensimom.com, ainda mantém os posts escritos desde o início do trabalho do romance. Dividido em categorias (Contos, Mitos & Lendas, Mondo Literário, Personagem Ausente, Processo Criativo, Técnica & Assemelhados e Uncategorized), a autora traça uma profunda discussão sobre o processo criativo do livro.

sinuca-embaixo-dagua

Fotos: Ieve Holthausen

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4 Comentários em “A Arquitetura das Memórias”

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